Grupo Delírio volta ao Guairinha com "Kafka – Entre Portas que Nunca Abrem" 15/05/2026 - 15:30
O Grupo Delírio Cia. de Teatro, reconhecido como uma das companhias mais inquietantes e autorais do Paraná, retorna ao palco do Guairinha no mês de maio para apresentar o espetáculo “Kafka – Entre Portas que Nunca Abrem”. Inspirada em contos, imagens e atmosferas kafkianas, a montagem não busca adaptar a obra de Kafka, mas habitar seu universo: um território em que a lógica se dissolve, a vigilância se torna destino e a existência humana se revela como um enigma sem saída. As apresentações acontecem de 29 a 31 de maio, com sessões na sexta e no sábado, às 21h, e no domingo, às 19h.
Na montagem a obra de Franz Kafka deixa de ser apenas referência literária para tornar-se matéria viva, pulsante, inquieta — uma apropriação poética que atravessa o tempo para nos confrontar com o presente. Na trama, cinco personagens, presos em um espaço sem portas, vigiam. Mas o que vigiam? Aos poucos, a peça revela que não se trata de proteger o mundo, mas de conter aquilo que ele rejeita: os medos, as culpas, os pesadelos e as violências que a sociedade insiste em não reconhecer. Assim, a dramaturgia constrói uma alegoria poderosa do nosso tempo, um mundo em que a aparência de paz é sustentada por mecanismos invisíveis de controle, negação e esgotamento humano.
Nessa encenação de vigília interminável, o pensamento de Kafka ecoa com uma força assustadoramente contemporânea. Nascido em 1883, em Praga, então parte do Império Austro-Húngaro, Kafka viveu entre a burocracia opressiva e a fragilidade da condição humana. Sua obra — marcada por textos como O Processo, A Metamorfose e O Castelo — transformou-se em um dos pilares da literatura moderna ao revelar o absurdo das estruturas sociais e a solidão do indivíduo diante de sistemas incompreensíveis. Não por acaso, o termo “kafkiano” tornou-se universal para definir situações em que o homem é esmagado por forças invisíveis, irracionais e inevitáveis.
Mais de um século depois, sua escrita permanece como um espelho perturbador. Em "Kafka - Entre Portas que Nunca Abrem", essa herança é reconfigurada para um mundo hiper conectado, saturado de informações e ainda assim profundamente alienado. Aqui, os personagens vigiam não apenas os outros, mas a própria falência do sentido. Observam, registram, temem — mas nunca compreendem totalmente. Como em Kafka, há sempre uma ameaça que não se vê, uma culpa que não se explica, uma saída que não existe.
A peça transforma o palco em um espaço de resistência poética, onde o sonho e o pesadelo se confundem. Ao fundir humor nervoso, filosofia e imagens de brutal beleza, o espetáculo convida o público a reconhecer-se nesse sistema de vigilância — seja como quem dorme, seja como quem vigia. Um jogo teatral vertiginoso sobre medo, consciência e existência. No fim, resta uma pergunta inquietante: se há alguém vigiando para que possamos dormir... quem vigia aquilo que não ousamos sonhar?
Sobre o Grupo Delírio — Fundado em 1984, o Grupo Delírio Cia. de Teatro construiu uma das trajetórias mais inquietas, premiadas e autorais do teatro paranaense. Sob a liderança de Edson Bueno, o grupo nasceu de uma necessidade artística intensa: transformar literatura, poesia, filosofia e delírio humano em linguagem cênica.
Desde os primeiros espetáculos, como Um Rato em Família e O Grande Deboche, o Grupo Delírio revelou uma identidade marcada pela ousadia estética e pela força dramatúrgica. Ao longo de mais de quatro décadas, a companhia apresentou montagens inspiradas em autores como Franz Kafka, Oscar Wilde, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, Shakespeare, Petrônio e Edgar Allan Poe. Misturando humor, poesia, angústia, ironia e reflexão existencial, o grupo consolidou um estilo próprio dentro da cena brasileira.
A trajetória do Delírio também é marcada pelo reconhecimento da crítica e do público, acumulando inúmeros Troféus Gralha Azul, Poty Lazarotto e premiações nacionais. Espetáculos como Uma Visita para Frieda, Psicose – A Comédia, Vermelho Sangue Amarelo Surdo, Kafka – Escrever é um Sono Mais Profundo do que a Morte e Satyricon Delírio tornaram-se referências de inventividade teatral.
Mais do que produzir peças, o Grupo Delírio sempre investigou o ser humano em suas contradições, desejos, fantasmas e sonhos. Seu teatro dialoga com a literatura, o cinema, a música e as artes visuais, criando montagens de forte impacto poético e imagético. Ao mesmo tempo em que celebra os grandes autores universais, a companhia mantém viva uma dramaturgia autoral profundamente brasileira e contemporânea. O Grupo Delírio também revelou atores, diretores, cenógrafos e artistas fundamentais para o teatro do Paraná.
Cada espetáculo reafirma uma busca permanente por liberdade criativa e experimentação estética. Entre o humor ácido e a melancolia, entre o sonho e a vertigem, o grupo atravessou décadas reinventando sua linguagem. E continua, ainda hoje, fazendo do teatro um território de liberdade, risco e encantamento.
Serviço:
Kafka – Entre Portas que Nunca Abrem
Apresentações: 29 a 31 de maio de 2026 (sexta e domingo)
Sexta e sábado, às 21h
Domingo, às 19h
Local: Auditório Salvador de Ferrante (Guairinha) | R. XV de Novembro, 971, Centro, Curitiba-PR
Tempo de duração do espetáculo: 65 minutos
Classificação etária: 14 anos
Especificação do espetáculo: Teatro
Ingressos: R$ 80 (inteira) | R$ 40 (meia-entrada), à venda pelo DiskIngressos e na Bilheteria do Teatro Guaíra
Informações:
FICHA TÉCNICA: Texto e Direção - Edson Bueno | Com Guga Cidral, Wilyah Schmitt, Luciano Maccio e Paulo Marques | Participação especial de Edson Bueno | Pianista: Luke Machado








